A vizinha correu para agarrar o jornal de sábado na varanda e ali o leu, de pé. Costumava caminhar com as notícias até a cozinha, onde o café da tarde dava os ponteiros da pequena família, somada pelo filho. A moradora da minha mesma Rua Getúlio Vargas era a única cliente da Folha de São Paulo em Içara, interior de Santa Catarina. Vivera na terra da garoa até 1974, quando a ditadura, por uma informação imprescindível para o restabelecimento da ordem cívica tupiniquim, o paradeiro do ex-namorado, marcou o pescoço e as costas dela para sempre. A euforia que amputou a rotina da leitura tranqüila sobre a toalha com margaridas vinha do Alto Comando do Exército, nada contente com o lançamento do livro “Direito à Memória e à Verdade”. Um primo paulistano lhe avisara, por telefone e antes do sol, que o periódico ia chegar ao interior do país com uma bomba.
- Eu nem desconfiava.
Danda, aos 58 anos, é ainda professora de História no segundo grau da maior escola pública da cidade. Mesmo largando o PT após o ocaso da era Zé Dirceu – já havia se candidatado ao cargo de vereadora em 2000, sem sucesso –, andava convencida na condenação oficial do governo ao regime militar. Não votei nela, mas conversávamos frequentemente. Lembro uma vez quando me disse que havia sido interrogada nas mesmas dependências do DOI-CODI onde Vladmir Herzog havia se apresentado. Naquele dia, discutimos sobre como deveria ser feito o jornalismo em dias de censura. Eu argumentava alternativas, ela ironizava as receitas de bolo. O fato é que Danda criou o calo da parcimônia depois da tortura, tanto foi que demorou doze anos para começar a freqüentar as plenárias do PT. De seu filho, por exemplo, se afastou quando tinha nove meses. A separação veio no terceiro ultimato para interrogá-la. Até então Danda ia voluntariamente explicar que o ex-namorado havia sumido há um ano. A terceira seção de perguntas foi financiada por uma violenta invasão a quitinete da zona sul, travessa Getúlio Vargas. Danda ficou cinqüenta dias na prisão e o bebê foi supostamente levado à casa do primo paulistano. Ela fugiu imediatamente para o interior de Santa Catarina quando a liberaram, se exilou onde a mão pesada do Estado não chegava. Ia viver com um tio. Marquito só se mudou para o meridional para viver com a mãe quando completou dois anos. Nunca fizeram o DNA, e disso ela falou apenas uma vez.
Fui entender a correria da vizinha naquela tarde quando liguei a televisão para escutar o Jornal Nacional. Estava preparando a janta quando Fátima Bernardes, mãe de trigêmios, anunciou o desgosto das Forças Armadas pelo livro. Descobrir que os militares ainda carregavam aquela mentalidade golpista causou uma revolta sobre meus pés, que sustentam um civil. Mas como sou pós-85, nunca saberia medir o peso que agüentou o pé de uma civil nada católica, graduada em Ciências Sociais e ex-namorada de um integrante do PCB. A sensação que me despertava era a de indisciplina dos disciplinados, mas Danda não pensava o mesmo.
Conversei com ela na manhã do dia seguinte. Não era a primeira vez que me comentava uma ação desse naipe no exército com falta de surpresa. Eu dizia que os militares tinham morrido naquele momento, Danda corrigia minha revolta vazia dizendo que eles já tinham nascido mortos. Eu, pós-85, calei a boca. Sentei para o café, era sábado. Pus minhas mãos sobre a toalha com margaridas e escutei. Seria incapaz de redigir as exatas palavras de Danda. A narrativa dela moveu mais que o senso de curiosidade. O poder persuasivo da professora de história usurpou uma série de dicotomias se desafiavam até então na arena simbólica da minha consciência.
Lembramos quando Jobim disse que não haveria indivíduo que possa reagir ao documento oficial. E se reagisse, teria resposta. Dias depois, o ministro da Defesa deu o braço a torcer. Deduzimos que o poder militar brasileiro nunca foi do indivíduo e jamais respeitaria as leis da economia política. Dos conselhos de William Petty à Irlanda, para que a ilha se tornasse um estado forte, foi escrito, em 1668, o “Tratado dos Impostos e Contribuições”. Lá, Petty alertava ao então rei de que o exército deve ser organizado pelo estado para a sua proteção territorial. Assim o institucionalizaram no mundo, como uma organização social de defesa cívica. O genuíno atropelo dessa ordem desde o século dezessete é explicado pelo discurso distorcido da ordem na nação. Hoje, nem o exército sabe o que se tornou. Tem dificuldades de buscar sua identidade social e vive na contradição de desfilar na fronteira entre a civilidade e a irracionalidade. Nem o bom selvagem de Rousseau – e nenhuma outra utopia pior – foi capaz de dar ou de tirar o sentido de um exército em um país. O absurdo que explica a funcionalidade militar está no infinito hiato entre a quantidade de dinheiro a ser gasto no Programa Nacional de Segurança e a cidade paranaense de Maripá, município sem delegacia, onde as orquídeas das ruas fizeram a população olhar a paisagem do lado de fora da janela como parte da casa. Ah, se não nos limitássemos às nossas cercas...
Danda odeia dicotomias. Já sabia, e ela retomou o tema quando comentou a esdrúxula noção de História dos militares que, no documento de resposta ao livro, escreveram que os “fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas”. Ela ficou puta da cara com a desculpa esfarrapada – disse que quase rasgou a Folha – ao ler que, para os militares, a Lei da Anistia, de 79, produziu indispensável concórdia de toda a sociedade. Ela se derrubou, mas tem medo da dicotomia da ironia. “E aí, muita gente vai ler isso e dizer: rimos ou choramos?”. Ela, que já estava cansada do Cansei, cansou de questionar quem realmente tem memória. Uns, diz ela, tem medo que a viremos rancorosos como os Argentinos; outros temem o neoliberalismo chileno; alguns, ainda mais, a democracia venezuelana. “Sabe qual é o maior absurdo? Usar frases do tipo ‘esse é o nosso problema’ em comentários emocionais”. Eu duvidava muito, sou jovem demais, pouco peso carrega o civil que lhe tocou aos meus pés. Entendia o absurdo que minha vizinha sempre tentou explicar. O bem e o mal, o belo e o feio, o inteligente e o ignorante: mecanismos de discriminação que organizam nossa concepção de realidade. Os escassos resmungos dela sempre chegavam nesse ponto, quando contava a etimologia da palavra fetiche. “Germanização do lindo português ‘feitiço’”. Ela se referia a Hegel, que registrou o neologismo quando contou da magia que os lusitanos aplicavam aos africanos e índios ao trocar espelhos por matéria-prima. O inexplicável, o fetiche. O feitiço de acreditar na ordem, sem sentir que, antes mesmo, a ordem crê em mim: o fazedor da ordem.
3 comentarios:
Eu gosto da tua forma de escrita e, quando tu fores jornalista de verdade verdadeira eu vou te ler nos jornais ou onde tu fores escrever...
Mas sabe? Eu estudei em escola estadual até o segundo ano e aí, quando eu estava no primeiro ano do segundo grau tiraram a matéria de história e sabe-se lá porque fizeram isso, né... e aí eu perdi essa parte da ditadura militar. O pouco que eu sei foi de ter ouvido falar ou lido alguma coisinha aqui e alguma coisinha alí.. e sabe? Me sinto meio fora do ar por não saber dessa parte da nossa história. Claro, assim que eu puder eu vou ler mais sobre isso pra poder entender direitinho...
Beijo.
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