27 de marzo de 2007
Cinzatour
"O filho, curioso, abordou o pai, que chegara cansado depois de um dia longo de trabalho:
- Pai, quanto você ganha por hora?
O pai, estafado, mandou para os ares a dúvida singela do garoto:
- Por hora? Nem eu sei. Ademais, o que te importa, meu filho. Tô cansado demais e quero descansar.
- Mas pai, aprendi na escola que todo mundo ganha por hora. Quando você ganha por hora?
O pai, como num movimento de compressão dos dedos, tentou se acalmar:
- Tá. Dez pesos.
O filho insistiu:
- Me dá cinco pesos?
- O quê? Além de me encomodar, eu, cansado que estou, você ainda me pede dinheiro? Ah, Senhor. Te manda daqui, vai! Cai fora, vai dormir, estudar, sei lá.
Desestimulado, o filho virou as costas e volta para o quarto. Naquele momento, o pai tropeça num suave arrependimento e tira cinco pesos da carteira para dar ao filho. Ao alcançar o quarto, retoma a voz tranquilamente:
- Toma, guri. É seu.
O rapaz muda o cenho imediatamente. Pega o dinheiro e corre para o travesseiro. Lá, junta com outros cinco pesos amassados e carrega a soma do dinheiro para o pai:
- Posso ficar uma hora com você?"
Aí, não quis ser dramático. Só achei o treco singelo e tô reproduzindo. Até pensei duas vezes antes de publicar. Enfim, não é nada incrível. Tá mais para auto-ajuda barata. Bem, aqui está. Até.
21 de marzo de 2007
- A uma amiga, sobre a saudade
19 de marzo de 2007
Iconograficamente falando
Tenho um par de fotos daqui. O tempo vai passando e eu sequer congelo os segundos. Tenho um bocado de medo, mas levo sem pressa. Bati algumas, mas não sei até onde foram poucas, até quando são muitas. A máquina analógica encarece as coisas. É uma das minhas angústias, um pedaço de gelo que guardo dentro da minha vaporizada curiosidade. Congelar, frear, reter, manter, querer sempre, como “O Perfume”, de Patrick Süskind. Enfim, tenho até o medo de matar minha paixão com a própria gana de tê-la, esse egoísmo involuntário que é querer o amor de quem se ama.
Hoje era meu primeiro dia de aula. Bem, o dia não o deixou de ser uma aula sobre o que eu terei pela frente. Estudo numa faculdade recente (pouco mais de vinte anos que a Sociologia saiu da Faculdade de Direito e desenvolveu seu próprio núcleo na UBA), que tem a sede descentralizada em três pontos de Buenos Aires. Há onze anos, professores, servidores e alunos estão lutando pela construção de uma sede única para a Faculdade de Ciências Sociais da UBA. Neste sábado, enfim, iriam fazer a inauguração da primeira etapa da construção da obra. Convidaram todas as agrupações estudantis (17 só na FSoc) para definir quais salas ficariam disponíveis para cada agrupação. Como as salinhas dos CAs, no Brasil. A diferença é que é um espaço por agrupação estudantil, e não por carreira. Indubitavelmente, cada agrupação, numa faculdade de sociologia, representa a visão de algum grupo político ou tribo ideológica maior. Trotskistas (poucos), nacionalistas (muitos), socialistas, (bastantes), revolucionários (médios), sócio-democratas (raros), progressitas (nenhuns). Na FSoc, é o que parece ter. Inclusive, é o que costumo ver nas ruas.
Como qualquer rixa que há entre esses grupos políticos, há também na FSoc. Naquele sábado, um, e apenas um dos 17 grupos discentes, se manifestou insatisfeito com a distribuição das salas (que estavam sendo feitas anarquicamente, ou seja, a faculdade deixou a cargo dos alunos para resolverem isso). Indignado com a resolução, o grupo quebrou as portas da nova sede. Como um castigo pelo ato, a gestão da faculdade resolveu suspender o primeiro dia de aula.
Mesmo sabendo da paralização, lá fui eu conversar com alguns estudantes. Encontrei, além das brigas entre os grupos estudantis, que batiam boca frente às portas fechadas de uma das sedes, motivos além. “Es político.” Acontece que a UBA não tem dinheiro para finalizar a obra. Uma militante, aluna de Comunicação Social, disse que tudo não passa de uma fumaça para deixar opaca a real situação da FSoc: a falta de dinheiro.
18 de marzo de 2007
Sob minha testa
Assim. Aqui começa a viagem. Ando despreocupado com o fim do cabelo que tenho. Ele vai, ventoa, voa, viaja comigo. Ando mais encantado com o espelho do mundo -qualquer canto capaz de transcender vida e morte- que o espelho do banheiro da residência. A Plaza de Mayo é bem assim. Venta meu cabelo e eu só o acompanho para não ficar para trás. Uso o tempo vazio para forjar um mundo que me parece real. Da praça para a janela sob minha testa.
O dia em que eu saí de casa
Mudei. Fiquei uns dias numa residência universitária, mas a muvuca estava muito grande. Cheio de gente e de horários. Pela gente, maravilha. Mas os hermanos queriam me pôr horário para almoçar (das 13 às 14h) e jantar (das 22 às 23h). Imaginem vocês se, num belo dia, eu quiser fazer feijão? Porra! São duas horas de panela no fogão! Não há, não deu.
Fora as extensões de horário. Para quem ainda não sabe, fiquei um mês em uma casa onde tenho que voltar, de domingo à quinta, à meia-noite. Acontece que é um lugar voltado para estudantes argentinos, que vêm do interior para estudar
Conheci uma cambada de gente. Fiz amigos. Se as promessas se cumprirem, a partir de julho Florianópolis vai receber gente do Peru, Colômbia, Argentina, Escócia, Curitiba, Rio e Japão. Como o “se” é a alavanca da possibilidade, já valeu a promessa. Todavia, mudei. Em primeiro de abril, vou a um hostel perto daqui. O endereço, reponho logo no Orkut. Das cartas, cuidarei uma a uma.