19 de septiembre de 2007

Danda e a anti-dicotomia

A vizinha correu para agarrar o jornal de sábado na varanda e ali o leu, de pé. Costumava caminhar com as notícias até a cozinha, onde o café da tarde dava os ponteiros da pequena família, somada pelo filho. A moradora da minha mesma Rua Getúlio Vargas era a única cliente da Folha de São Paulo em Içara, interior de Santa Catarina. Vivera na terra da garoa até 1974, quando a ditadura, por uma informação imprescindível para o restabelecimento da ordem cívica tupiniquim, o paradeiro do ex-namorado, marcou o pescoço e as costas dela para sempre. A euforia que amputou a rotina da leitura tranqüila sobre a toalha com margaridas vinha do Alto Comando do Exército, nada contente com o lançamento do livro “Direito à Memória e à Verdade”. Um primo paulistano lhe avisara, por telefone e antes do sol, que o periódico ia chegar ao interior do país com uma bomba.

- Eu nem desconfiava.

Danda, aos 58 anos, é ainda professora de História no segundo grau da maior escola pública da cidade. Mesmo largando o PT após o ocaso da era Zé Dirceu – já havia se candidatado ao cargo de vereadora em 2000, sem sucesso –, andava convencida na condenação oficial do governo ao regime militar. Não votei nela, mas conversávamos frequentemente. Lembro uma vez quando me disse que havia sido interrogada nas mesmas dependências do DOI-CODI onde Vladmir Herzog havia se apresentado. Naquele dia, discutimos sobre como deveria ser feito o jornalismo em dias de censura. Eu argumentava alternativas, ela ironizava as receitas de bolo. O fato é que Danda criou o calo da parcimônia depois da tortura, tanto foi que demorou doze anos para começar a freqüentar as plenárias do PT. De seu filho, por exemplo, se afastou quando tinha nove meses. A separação veio no terceiro ultimato para interrogá-la. Até então Danda ia voluntariamente explicar que o ex-namorado havia sumido há um ano. A terceira seção de perguntas foi financiada por uma violenta invasão a quitinete da zona sul, travessa Getúlio Vargas. Danda ficou cinqüenta dias na prisão e o bebê foi supostamente levado à casa do primo paulistano. Ela fugiu imediatamente para o interior de Santa Catarina quando a liberaram, se exilou onde a mão pesada do Estado não chegava. Ia viver com um tio. Marquito só se mudou para o meridional para viver com a mãe quando completou dois anos. Nunca fizeram o DNA, e disso ela falou apenas uma vez.

Fui entender a correria da vizinha naquela tarde quando liguei a televisão para escutar o Jornal Nacional. Estava preparando a janta quando Fátima Bernardes, mãe de trigêmios, anunciou o desgosto das Forças Armadas pelo livro. Descobrir que os militares ainda carregavam aquela mentalidade golpista causou uma revolta sobre meus pés, que sustentam um civil. Mas como sou pós-85, nunca saberia medir o peso que agüentou o pé de uma civil nada católica, graduada em Ciências Sociais e ex-namorada de um integrante do PCB. A sensação que me despertava era a de indisciplina dos disciplinados, mas Danda não pensava o mesmo.

Conversei com ela na manhã do dia seguinte. Não era a primeira vez que me comentava uma ação desse naipe no exército com falta de surpresa. Eu dizia que os militares tinham morrido naquele momento, Danda corrigia minha revolta vazia dizendo que eles já tinham nascido mortos. Eu, pós-85, calei a boca. Sentei para o café, era sábado. Pus minhas mãos sobre a toalha com margaridas e escutei. Seria incapaz de redigir as exatas palavras de Danda. A narrativa dela moveu mais que o senso de curiosidade. O poder persuasivo da professora de história usurpou uma série de dicotomias se desafiavam até então na arena simbólica da minha consciência.

Lembramos quando Jobim disse que não haveria indivíduo que possa reagir ao documento oficial. E se reagisse, teria resposta. Dias depois, o ministro da Defesa deu o braço a torcer. Deduzimos que o poder militar brasileiro nunca foi do indivíduo e jamais respeitaria as leis da economia política. Dos conselhos de William Petty à Irlanda, para que a ilha se tornasse um estado forte, foi escrito, em 1668, o “Tratado dos Impostos e Contribuições”. Lá, Petty alertava ao então rei de que o exército deve ser organizado pelo estado para a sua proteção territorial. Assim o institucionalizaram no mundo, como uma organização social de defesa cívica. O genuíno atropelo dessa ordem desde o século dezessete é explicado pelo discurso distorcido da ordem na nação. Hoje, nem o exército sabe o que se tornou. Tem dificuldades de buscar sua identidade social e vive na contradição de desfilar na fronteira entre a civilidade e a irracionalidade. Nem o bom selvagem de Rousseau – e nenhuma outra utopia pior – foi capaz de dar ou de tirar o sentido de um exército em um país. O absurdo que explica a funcionalidade militar está no infinito hiato entre a quantidade de dinheiro a ser gasto no Programa Nacional de Segurança e a cidade paranaense de Maripá, município sem delegacia, onde as orquídeas das ruas fizeram a população olhar a paisagem do lado de fora da janela como parte da casa. Ah, se não nos limitássemos às nossas cercas...

Danda odeia dicotomias. Já sabia, e ela retomou o tema quando comentou a esdrúxula noção de História dos militares que, no documento de resposta ao livro, escreveram que os “fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas”. Ela ficou puta da cara com a desculpa esfarrapada – disse que quase rasgou a Folha – ao ler que, para os militares, a Lei da Anistia, de 79, produziu indispensável concórdia de toda a sociedade. Ela se derrubou, mas tem medo da dicotomia da ironia. “E aí, muita gente vai ler isso e dizer: rimos ou choramos?”. Ela, que já estava cansada do Cansei, cansou de questionar quem realmente tem memória. Uns, diz ela, tem medo que a viremos rancorosos como os Argentinos; outros temem o neoliberalismo chileno; alguns, ainda mais, a democracia venezuelana. “Sabe qual é o maior absurdo? Usar frases do tipo ‘esse é o nosso problema’ em comentários emocionais”. Eu duvidava muito, sou jovem demais, pouco peso carrega o civil que lhe tocou aos meus pés. Entendia o absurdo que minha vizinha sempre tentou explicar. O bem e o mal, o belo e o feio, o inteligente e o ignorante: mecanismos de discriminação que organizam nossa concepção de realidade. Os escassos resmungos dela sempre chegavam nesse ponto, quando contava a etimologia da palavra fetiche. “Germanização do lindo português ‘feitiço’”. Ela se referia a Hegel, que registrou o neologismo quando contou da magia que os lusitanos aplicavam aos africanos e índios ao trocar espelhos por matéria-prima. O inexplicável, o fetiche. O feitiço de acreditar na ordem, sem sentir que, antes mesmo, a ordem crê em mim: o fazedor da ordem.

Quando ia me comentar sobre os preconceitos dos terráqueos às metanarrativas e os absurdos geniais e nonsense da pós-modernidade, Marquito chegou do serviço com a comida para o almoço. Era sagrado, o filho jamais ouvira uma palavra da Danda anti-dicotômica. Sob ele prevaleciam os valores morais de certo e errado. Saudei o casal e tomei o rumo de casa, cruzando a Rua Getúlio Vargas. Me veio à memória um colega budista, que sempre me aconselhava a seguir o caminho do meio. Ali havia entendido o prazer e a maravilha do vai-e-vem.

27 de junio de 2007

Chile, muito obrigado.

Tinha um imaginário do campo, bonito. Achei que ia ser assim pra sempre, até que minha tacanha mente teve que se fazer apertar novos imaginários. Alguns, os anulei. Outros, ainda estão aí. Gostaria de agradecer solenemente à Andrés Wood e Charles Bergquist. Outro Chile é possível assim como essa frase foi possível: vai aprender a ler antes de escrever qualquer weada!

- Para meus dois leitores: "Machuca", Andrés Wood. Esse filme vale a pena. Tem semelhança com "O dia que meus pais saíram de casa", de Cao, por usarem a ótica protagonista infantil. E Bergquist é um capo que me contou como foi a organização obreira no país, desde os tempos do salitre até a estruturação da esquerda que levou ao governo socialista de Allende. Cuidate con la historia, weon. Te puede hacer enamorarse con la weada. Agora, me dêem tchau porque eu vou tomar meu onze.

18 de junio de 2007

Venho pela calçada, a passos curtos, buscando a hipálage perfeita para uma música que quero compor. Faz algumas semanas que tento casar uma nova harmonia com alguma história simples. Evito repetir a dicotomia 'simples e complicado'. Enchi vários papéis com metáforas medíocres sobre como eu penso que deveria levar a vida. Dentro de um ônibus, sobre um domingo, contra a mão. Vejo, e isso me tinha dado conta antes mesmo de dar uma volta pelo bairro Monserrat, que é preciso buscar uma via fresca. Algumas frases que rindam esculpir um objeto que desconheço. Em suma, caminho observando detalhes, e batalho contra minha ignorância para ganhar uma rima mais suave que meus anseios. Já se tornaram frívolos.

Pensei em escrever sobre um guri. Alguém que, com os dezessete anos, quer voltar à casa porque desacredita no êxito que buscava na faculdade. Quer limpar os boletins e fazer tudo outra vez. E tenho dito com jura a verossimilhança da anedota. Não tenho é noção de onde tenho tempo ainda para levar esse intento de melodizar meus passeios, sendo que me sobram três dias para vomitar um artigo acadêmico em español. Até que estou afinado no idioma. Tanto que me custa, duplamente, levar essas frases até o final -duplamente porque me resulta indefinido o ponto final. Por isso sou fã das narrativas de James Joyce. Nunca as li, mas ouvi de um amigo que têm a ousadia de tentar repetir o fluxo da consciência. Seria lindo e vadio poder ler, em qualquer outro sistema capaz de codificar, veementemente, as frases soltas e vulcanizadas do pensamento.

Uma saudação ao meu solitário leitor.

Obrigado, escritor.

4 de junio de 2007

Hogar, dulce y cerrado hogar

Texto por Bárbara Bonfili, cidade de Trelew, província de Chubut, Argentina.


El homo trinidarius

El homo trinidarius, también conocido como trinidario, es un mamífero perteneciente a la familia hominidae del orden de los primates, asignado a la clase mamalia dentro del reino animal.

El trinidario medio se caracteriza por residir fuera de su lugar de origen a partir de las dos décadas de vida (cifra promedio), momento en el que emprende un viaje migratorio hacia la ciudad cosmopolita, y constituye su nueva guarida en una gran cueva, que llamaremos “Residencia”, a la cual describiremos luego; cuenta con un certificado en el que consta su calidad de estudiante[1], aunque sus acciones no siempre la confirman; está necesitado de constante contacto físico y emocional con otros ejemplares -característica que lo asemeja al ser humano-; tiene hábitos nocturnos –particularidad que comparte con los lémures pigmeos, de la familia cheirogaleidae de los primates-; una vez constituida su nueva guarida, el trinidario lleva una vida de casi completa reclusión y sus relaciones se ven limitadas a las endotrinidarias.

El trinidario habita en la ciudad de Buenos Aires, en Argentina, en una gran cueva que posee compartimentos en los que moran de uno a cinco trinidarios; hemos detectado una relación inversa entre la cantidad de ejemplares en cada sector y la capacidad de satisfacción de las necesidades alimenticias, de abrigo, etc., tanto cuantitativa como cualitativamente. Existen tres ámbitos exteriores que pueden ser considerados como extensiones de la morada: el primero, conocido como “el quiosco”, ubicado a unos cincuenta metros de la residencia, es un espacio relativamente reducido, que suele ser concurrido por seres humanos, al que los trinidarios se dirigen a ingerir alcohol y, en ciertas ocasiones, alimentos de tipo chatarra[2]. El segundo recinto se encuentra a unos doscientos metros de la cueva y los trinidarios se refieren a este como “el bar”, al que concurren frecuentemente. Allí se dedican a ingerir grandes cantidades de alcohol y a realizar juegos colectivos de naturaleza extraña. El tercer ambiente es una construcción similar a un gran galpón, ubicado a casi seiscientos metros de distancia, al que la mayor parte de los especímenes concurren los días jueves, en el cual escuchan melodías de dudosa calidad, y en la oscuridad mueven sus cuerpos al ritmo de los sonidos, mientras llevan a cabo marginales actos de socialización con sujetos exotrinidarios. En este ámbito, conocido como “Goa”, también se produce la ingesta de alcohol en grandes cantidades.

Como ya hemos mencionado, la vida del trinidario es esencialmente recluida; podemos encontrar a estas peculiares criaturas transitando los pasillos de la cueva, realizando actos de socialización endotrinidarios en los compartimentos, o bien en alguno de los tres espacios mencionados previamente. Sin embargo, cabe mencionar la existencia de otro ámbito en el que el trinidario se desenvuelve eventualmente: el establecimiento estudiantil. La frecuencia de visitas a este lugar varía de un espécimen a otro (pueden ser visitas diarias, semanales o incluso mensuales, en los casos en que el trinidario sólo busca seguir siendo acreedor de su certificado de estudiante).

Dentro de la comunidad trinidaria existen algunos ejemplares que, además de concurrir frecuentemente al establecimiento estudiantil, se dedican a una marginal actividad conocida como lectura, mediante la cual introducen información en su memoria. Estos extraños individuos suelen concurrir con menor frecuencia a los ámbitos-extensión.

La estructura social de los trinidarios está marcada por la agrupación de los ejemplares en pequeños grupos con variados niveles de interrelación. Las causas de las agrupaciones, que llamaremos amistades, pueden ser enumeradas como:

Temporales: hemos observado que los individuos que llegan a la cueva en temporada baja (febrero y principios de marzo) tienden a acercarse rápidamente, constituyendo relaciones intensas pero predominantemente superficiales, mediante las cuales sacian sus necesidades de contacto físico y emocional.

Sectoriales: otro de los factores que incide en el contacto predominantemente emocional es el hecho de morar en un mismo compartimento; al verse obligados a encontrarse constantemente, los trinidarios constituyen una amistad.

Por afinidad: hemos notado que en algunos de los grupos trinidarios sus miembros gustan de las mismas cosas, realizan las mismas actividades, por lo que se reúnen a hacerlas juntos.

Por procedencia: al haber trinidarios llegados de países extranjeros, en ocasiones la sensación de lejanía los lleva a relacionarse con ejemplares de su mismo origen, aunque esta dependencia se extiende durante la primera temporada, luego de la cual el trinidario extranjero se siente preparado para acercarse a individuos de otras nacionalidades.

Por antigüedad: los trinidarios mayores, que ya han vivido numerosas temporadas en la cueva, tienden a relacionarse entre ellos dejando de lado a los recién llegados. Creemos que esto se debe a la disparidad de situaciones emocionales que están viviendo unos y otros. Este caso es similar al de los trinidarios extranjeros, ya que el aislamiento sólo se prolonga durante la primera temporada.

Estos grupos no son cerrados, sino que un mismo trinidario puede ser parte constitutiva de más de uno de ellos. También existen los casos de trinidarios a los que no es posible encasillar en un grupo, sin que esto implique una actitud de hostilidad hacia sus congéneres.

Las relaciones físicas o afectivas de carácter amatorio suelen ser efímeras, dándose un fenómeno de circulación de numerosos especímenes femeninos por un mismo macho, e inversamente, circulación de numerosos especímenes masculinos por una misma hembra. Esto se inscribe en un régimen de monogamia aparente y poligamia práctica, en el que las relaciones pueden ser secretas o públicas[3]. Existen algunos casos de monogamia real constituidos en las relaciones cuasiconyugales, que constituyen casos excepcionales.

Los trinidarios son esencialmente herbívoros, aunque la mayor parte de la comunidad basa su alimentación en dos elementos principales: el arroz y los fideos, acompañados por la sal y el aceite, y en ocasiones especiales alguna variedad de embutidos. La minoría restante, predominantemente extranjera, se alimenta en base a una dieta ostentosa que incluye comestibles de lujo, tales como la carne animal y las pastas elaboradas, que frecuentemente acompañan con postres, como el helado.

La vida en la comunidad discurre entre los meses de febrero-marzo y noviembre-diciembre. Después de este período los trinidarios evolucionan a otras formas de convivencia o independencia, o bien reinciden, transformándose en trinidarios mayores para el ciclo próximo.


[1] Dícese del espécimen que concurre a un establecimiento estudiantil, en este caso de grado superior.

[2] Alimentos con excesivos contenidos de calorías y grasas.

[3] Nota de la autora: el secreto es una identidad utópica en la comunidad trinidaria, por lo que entendemos por secreto, un dato que no ha tomado carácter público, lo cual no quita que todos estén enterados del asunto.

27 de mayo de 2007

Depois de minha volta pelo bosque

Saí, fui dar uma volta. Andei por doze praças, a mais bonita eu ainda não soube pôr em poesia. Em duas eu passei a noite, outras cinco me ensinaram sobre a fé. As outras quatro estavam sem luz, mas cheias de vagais vagalumes.

Uma dessas de vagais vagalumes era em outro país. Fui dar um tempo, por os pontos no lugar. O destino escolheu Montevidéu para o reencontro. Minha mãe, meu pai, minha irmã. De lá, trouxe uma câmera fotográfica e um conselho: "viu os vagalumes? andam sempre juntos".

Comecei a juntar, desde aí, as frases que eu li e que me renderam copos e copos de Quilmes na última semana. Preservei os nomes. Alguns se identifica. Outros, imaginem:

"Você devia continuar escrevendo. Queria ver como andam as coisas" - Ciricúma

"O blog é uma forma de prender no tempo as coisas que eu tô vivendo" - U.K.

"Bebe, bebe bastante porque aqui a cerveja é muito cara" - Florianópolis

"Te amo demais" - Içara

"¿Te vas? Quedáte, boludo. Yo voy a hacer la cena para nosotros y después vamos al cine" - Adolfo Alsina

"Fili, vamos a juntarnos este findi" - Diagonal Norte

"Quiero que la gente me escuche, tengo lo que decir" - Flores

"El hombre olvida que es un muerto que conversa con muertos - Borges" - Corrientes

"Fica mais quatro meses." - Praza del Congresso

"No llores, estoy lejos también." - Anteojos

Não me ouso a dizer que é uma revolução. Me meto apenas a relatar, dizer do processo, contar os detalhes. Não tenho ouvidos para sentir a beleza do som. Tenho ouvidos e boca para dizer que o som tem beleza. É mais ou menos por aí.

10 de abril de 2007

Relógio de sol

A moça tinha encontrado com ele na praça para ouvir um sacerdote famoso daquela região, perto do rio leste. Convidou o rapaz fazia uma lua e meia, que contou no seu relógio solar os centímetros que faltavam para o discurso daquele sábio começar. Em verdade, ele levava uma carta no bolso para entregá-la. Ou seja, ia também pela companhia. Ela vinha de um lugar distante e se conheceram porque um cantor daquele condado, do qual ambos eram fã, tinha os apresentado. Até então, nunca trocaram cartas, mas tinham gostos parecidos. Ouviam gente parecida. E começava o discurso.

Enquanto o iluminado falava, ela assobiava uma cantilena da província do rapaz. Tentava deixar o tempo passar mais rápido. Alguma coisa incomodava a placidez comum dela. Foi quando, antes mesmo de o sacerdote terminar sua homilia, um cavaleiro chamou-a pelo nome atrás da multidão:

- Nenhuma!

Aos pulos, entregou ao rapaz dois bilhetes de um espetáculo que logo ia passar na casa de festas da esquina. Apertou a mão e foi embora.

No horário, ele rumou ao recinto da peça, conforme havia entendido. Ficou na ante-sala do recinto, esperando que ela aparecesse. No convite, a moça não tinha falado palavra alguma. Apenas fez o gesto de entregar as entradas. E ele ficou lá, por toda noite esperando. Quando o relógio de sol da praça reencontrou a própria sombra e os galos começaram a afinar o louvor do dia, decidiu ir embora. No outro dia, nenhum cavaleiro apareceu com uma mensagem para explicar-lhe o ocorrido. Como não sabia de qual rincão era a moça, decidiu seguir seus passos desajeitados. Guardou a carta para um outro dia, mas nunca mais a viu naqueles discursos fanáticos da praça.

6 de abril de 2007

Atalho

Aos que, mesmo importunados com meu desleixo de aceitar as distâncias e afastar-me um bocado, queiram repetir o velho ato na data querida, digitem:

0021 5411 4381-0734

Senha: "Yo quiero hablar con Filipe".

"De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas."
Calvino

27 de marzo de 2007

Cinzatour

Chove, dia e noite, sem parar. Como as aulas começaram, tenho só impressões de papel. É texto atrás de texto, nome atrás de nome, revolução atrás de crise. Enquanto voltava para casa, sob o cinza mundo de outono, li:

"O filho, curioso, abordou o pai, que chegara cansado depois de um dia longo de trabalho:
- Pai, quanto você ganha por hora?
O pai, estafado, mandou para os ares a dúvida singela do garoto:
- Por hora? Nem eu sei. Ademais, o que te importa, meu filho. Tô cansado demais e quero descansar.
- Mas pai, aprendi na escola que todo mundo ganha por hora. Quando você ganha por hora?
O pai, como num movimento de compressão dos dedos, tentou se acalmar:
- Tá. Dez pesos.
O filho insistiu:
- Me dá cinco pesos?
- O quê? Além de me encomodar, eu, cansado que estou, você ainda me pede dinheiro? Ah, Senhor. Te manda daqui, vai! Cai fora, vai dormir, estudar, sei lá.
Desestimulado, o filho virou as costas e volta para o quarto. Naquele momento, o pai tropeça num suave arrependimento e tira cinco pesos da carteira para dar ao filho. Ao alcançar o quarto, retoma a voz tranquilamente:
- Toma, guri. É seu.
O rapaz muda o cenho imediatamente. Pega o dinheiro e corre para o travesseiro. Lá, junta com outros cinco pesos amassados e carrega a soma do dinheiro para o pai:
- Posso ficar uma hora com você?"

Aí, não quis ser dramático. Só achei o treco singelo e tô reproduzindo. Até pensei duas vezes antes de publicar. Enfim, não é nada incrível. Tá mais para auto-ajuda barata. Bem, aqui está. Até.

21 de marzo de 2007

- A uma amiga, sobre a saudade

"Estou me mudando. Dia primeiro de abril, carrego minhas coisas para outro canto. Aliás, mudo a cada segundo. Viver uma nova cultura é uma experiência bizarra. Você cresce, descasca e, no segundo passo, se sente obsoleto. Feito sol e lua, que vão e voltam. Há os dias de lua cheia, que são os momentos colvulsionados da viagem. São quando é preferível ficar em casa para pôr os dias no lugar. Contar nos dedos as pessoas que conheceu, perfilá-las e babar. Há os de lua nova, quando lua e sol ficam todos dividindo o mundo. Creio que são os momentos de embriaguez, de tremenda felicidade, de loucura vulcânica. Ademais, tenho os eclipses. Aí, vc já sabe. São quando eu sinto saudades. A diferença é que, nesse meu mundo longe, lua e sol estão apaixonados. Vivem brincando de eclipse."

19 de marzo de 2007

Iconograficamente falando

Tenho um par de fotos daqui. O tempo vai passando e eu sequer congelo os segundos. Tenho um bocado de medo, mas levo sem pressa. Bati algumas, mas não sei até onde foram poucas, até quando são muitas. A máquina analógica encarece as coisas. É uma das minhas angústias, um pedaço de gelo que guardo dentro da minha vaporizada curiosidade. Congelar, frear, reter, manter, querer sempre, como “O Perfume”, de Patrick Süskind. Enfim, tenho até o medo de matar minha paixão com a própria gana de tê-la, esse egoísmo involuntário que é querer o amor de quem se ama.

Hoje era meu primeiro dia de aula. Bem, o dia não o deixou de ser uma aula sobre o que eu terei pela frente. Estudo numa faculdade recente (pouco mais de vinte anos que a Sociologia saiu da Faculdade de Direito e desenvolveu seu próprio núcleo na UBA), que tem a sede descentralizada em três pontos de Buenos Aires. Há onze anos, professores, servidores e alunos estão lutando pela construção de uma sede única para a Faculdade de Ciências Sociais da UBA. Neste sábado, enfim, iriam fazer a inauguração da primeira etapa da construção da obra. Convidaram todas as agrupações estudantis (17 só na FSoc) para definir quais salas ficariam disponíveis para cada agrupação. Como as salinhas dos CAs, no Brasil. A diferença é que é um espaço por agrupação estudantil, e não por carreira. Indubitavelmente, cada agrupação, numa faculdade de sociologia, representa a visão de algum grupo político ou tribo ideológica maior. Trotskistas (poucos), nacionalistas (muitos), socialistas, (bastantes), revolucionários (médios), sócio-democratas (raros), progressitas (nenhuns). Na FSoc, é o que parece ter. Inclusive, é o que costumo ver nas ruas.

Como qualquer rixa que há entre esses grupos políticos, há também na FSoc. Naquele sábado, um, e apenas um dos 17 grupos discentes, se manifestou insatisfeito com a distribuição das salas (que estavam sendo feitas anarquicamente, ou seja, a faculdade deixou a cargo dos alunos para resolverem isso). Indignado com a resolução, o grupo quebrou as portas da nova sede. Como um castigo pelo ato, a gestão da faculdade resolveu suspender o primeiro dia de aula.

Mesmo sabendo da paralização, lá fui eu conversar com alguns estudantes. Encontrei, além das brigas entre os grupos estudantis, que batiam boca frente às portas fechadas de uma das sedes, motivos além. “Es político.” Acontece que a UBA não tem dinheiro para finalizar a obra. Uma militante, aluna de Comunicação Social, disse que tudo não passa de uma fumaça para deixar opaca a real situação da FSoc: a falta de dinheiro.

18 de marzo de 2007

Sob minha testa


Assim. Aqui começa a viagem. Ando despreocupado com o fim do cabelo que tenho. Ele vai, ventoa, voa, viaja comigo. Ando mais encantado com o espelho do mundo -qualquer canto capaz de transcender vida e morte- que o espelho do banheiro da residência. A Plaza de Mayo é bem assim. Venta meu cabelo e eu só o acompanho para não ficar para trás. Uso o tempo vazio para forjar um mundo que me parece real. Da praça para a janela sob minha testa.

O dia em que eu saí de casa

Mudei. Fiquei uns dias numa residência universitária, mas a muvuca estava muito grande. Cheio de gente e de horários. Pela gente, maravilha. Mas os hermanos queriam me pôr horário para almoçar (das 13 às 14h) e jantar (das 22 às 23h). Imaginem vocês se, num belo dia, eu quiser fazer feijão? Porra! São duas horas de panela no fogão! Não há, não deu.


Fora as extensões de horário. Para quem ainda não sabe, fiquei um mês em uma casa onde tenho que voltar, de domingo à quinta, à meia-noite. Acontece que é um lugar voltado para estudantes argentinos, que vêm do interior para estudar em Buenos Aires. Assim, moram aqui as pessoas que recém ingressam na vida universitária. Jovens que são, precisam de regras duras, tanto para manter-los na rédea quanto para agradar os pais que em casa estão.

Conheci uma cambada de gente. Fiz amigos. Se as promessas se cumprirem, a partir de julho Florianópolis vai receber gente do Peru, Colômbia, Argentina, Escócia, Curitiba, Rio e Japão. Como o “se” é a alavanca da possibilidade, já valeu a promessa. Todavia, mudei. Em primeiro de abril, vou a um hostel perto daqui. O endereço, reponho logo no Orkut. Das cartas, cuidarei uma a uma.

8 de marzo de 2007

Um quartzo de pesos

Ostentar o título de "cidade mais européia da América Latina" tem lá seus prejuízos. Quer um café de luxo, com dez lustres austríacos, cada um confeccionado com cem vidros de quartzo que custam $ 50 cada? Siga o cheiro. Quer um super pancho (cachorro-quente) com gaseosa e mais uma salada? Cruze a rua. Cada vidro daqueles te garante um mês de lanche todos os dias. A diferença é que, no ristorant, é você e quem mais puder convidar. No kiosko, a informação sobre o Boca Júniors vem ainda antes do telejornal. Volte pra casa bem alimentado e dizendo para seu companheiro de quarto: - Riquelme não joga? Já sabia. Enquanto isso, sobre as mesas detrás do vidro daquele restaurante, um jornal diário, que havia sido impresso há quase 24 horas, já tinha passado da validade. O que faz um povo não é classe senão face.